sábado, março 22, 2008

Instinto animal

O medo de ver assim, tão de perto, um leão a rugir, deu lugar à observação de que o leão não me estava a ameaçar. Na realidade, tinha um espinho cravado numa das patas da frente, que lambia com um ar furioso e sofrido.
Conhecendo o cliché, pensei de imediato nas vantagens que haveria em retirar esse espinho e ficar com um amigo leão. No entanto, não fazia a menor tenção de me aproximar daquela fera!
Resignado, o leão soltou um lamento rugido que me comoveu. Pobre criatura! Tão poderoso que era e não conseguia livrar-se de um espinho oportunista.
Cheio de compaixão, aproximei-me muito devagar. O leão pareceu perceber a minha intenção e nem se mexeu, nem sequer olhou para mim. Visto de perto, o espinho estava cravado entre duas garras do leão. Num gesto rápido e decisivo, arranquei-o com força. O leão soltou um rugido que fez estremecer o chão e me deixou quase surdo.
Caí para trás e pensei: que fui fazer? O leão aproximou-se lentamente de mim, com um ar desinteressado. Levantou a outra pata e empurrou-me um pouco. Quando o vi a abrir a bocarra pensei: não o posso levar a mal, afinal de contas é esta a sua natureza...
Ao perder a consciência vi nos olhos da fera o olhar sincero do instinto animal.

segunda-feira, novembro 12, 2007

Van den Budenmayer (Preisner)



Que pena que não se possa voltar a ouvir uma música pela primeira vez...

O voi che siete in piccioletta barca,
desiderosi d'ascoltar, seguiti
dietro al mio legno che cantando varca,

tornate a riveder li vostri liti:
non vi mettete in pelago, ché forse,
perdendo me, rimarreste smarriti.

L'acqua ch'io prendo già mai non si corse;
Minerva spira, e conducemi Appollo,
e nove Muse mi dimostran l'Orse.


(Ó vós que estais numa barca tão pequena,
desejosos de escutar, seguindo
atrás da minha pequena barca que avança a cantar,

regressai às vossas costas:
evitai o perigo, pois seguramente,
se me perdêsseis ficaríeis à deriva.

A água que atravesso nunca foi cruzada
Minerva sopra e conduz-me Apolo
e nove Musas indicam-me a Ursa.)

inDante, Paradiso

quarta-feira, outubro 03, 2007

breathing like a drowning man


quando no azul mergulhei nem me apercebi de que tudo tinha ficado para trás...

no azul perguntaste-me o nome e não soube falar nem o que era um nome
e já não havia no azul quem se apercebesse destas coisas todas

abri os olhos e não soube dizer onde estavas no azul
porque já tudo era azul

criaturas assombrosas deslizavam, azuis, com olhos brilhantes e feitos de névoa

um lento arrepio subia-me pela espinha acima
um frio confortável ia-me envolvendo, abraço de azul profundo

deixei-me levar como se dançasse

azul


No fundo do mar não há barulho.

Só o som distante da canção das baleias se consegue distinguir do silêncio.

Nadar é flutuar é voar.

A água é um líquido mais leve do que o ar.

Espero que se formem as guelras. Já não deve demorar muito tempo.

Aqui não se ouvem os gritos, não há confusão.

Aqui tudo é sempre azul. Como eu.

quinta-feira, agosto 30, 2007

Hecatonquiros ou Arcanjos


Na mitologia grega fala-se do terrível deus Urano (Céu) que não deixava os filhos que gerava saírem de dentro da barriga da sua mãe, Gaia (terra). Este deus foi castigado pelos seus filhos liderados pelo fortíssimo Chronos (Tempo), que o castrou com um golpe só, quando ele se baixou para copular com a Gaia. Do sangue que caiu, Gaia fez nascer as terríveis Erínias (Vermelhas), deusas do remorso. Os genitais do deus caíram ao mar e da espuma que deles jorrou (sémen) nasceu Vénus (Amor).

No entanto, Cronos não se preocupou em libertar os seus irmãos Hecatonquiros (Cem-Braços), mas apenas os Titãs. Temendo que a sua descendência o destronasse, Cronos comia os seus filhos mal eles nasciam. Reia resolveu castigar Cronos e salvou um dos seus filhos dando um pedra a comer ao deus. Este filho, Zeus (Luz), organizou uma revolta e uma luta incrível. Para vencer a batalha contra os Titãs (Titanomaquia) libertou os Hecatonquiros que aprisionaram os Titãs enquanto os deuses olímpicos, partidários de Zeus, os atacavam.

O castigo que mereceram os Titãs vencidos foi serem aprisionados num buraco sem luz, onde tinham estado os Hecatonquiros, agora convertidos em guardas dessa prisão.
(Hesíodo, Teogonia)

Lúcifer (feito de Luz ou estrela da manhã) e os seus partidários desceram à terra e andavam a misturar-se com os homens, copulando, comendo e bebendo como eles. O arcanjo São Miguel reuniu um tremendo exército e foi ao seu encontro para lhes mostrar a cólera de deus pela sua desobediência. A batalha terminou com os anjos desviados a cairem do céu. Então, São Miguel perseguiu-os e prendeu-os num buraco sem luz de onde nunca mais sairão.
(Evangelho de Enoch)

A ideia é sempre a mesma, o afastamento da luz é o castigo supremo. E os arcanjos são monstros ferocíssimos que aplicam a justiça divina, por amor à Luz.