sábado, julho 05, 2008

Axolotl


Para os astecas eram monstros aquáticos, porque eram diferentes. Vivem sempre dentro de água, ao contrário das outras salamandras que na idade adulta perdem as guelras e passam a viver em terra. Têm uma capacidade única de regenerar qualquer parte do seu corpo que seja cortada, por um número indefinido de vezes. E às vezes são rosados.
O seu nome remete para o grande irmão gémeo de Quetzalcoatl, a serpente emplumada, chamado Xolotl. Xolotl era o psicopompo dos astecas, o que acompanhava as almas dos mortos na sua viagem através do país da morte.
Os axolotl vistos ao vivo são impressionantes, apetece tê-los em casa, estranhos e surreais, como pequenas entidades protectoras ou apenas criaturas fantásticas.

sexta-feira, junho 06, 2008

De mão em mão

Tenras nove horas da noite, passo apressado, dirijo-me para o cinema. Encostado a uma parede está uma figura, parte da paisagem decerto, que parece querer algo.
Páro.
Tento voltar a ouvir na minha cabeça o que acabou de ser dito. Era algo como precisar de ajuda, ajudar a chegar à estrada para chamar um táxi.
Vejo-o. Apoiado em duas muletas, uma perna das calças traçada em frente da outra parecendo não albergar nada lá dentro e uma das mãos com um aspecto fraco e doentio, o homem deve ter uns cinquenta anos.
Esforço-me por compreender, concluo que o pobre velho quer chegar à estrada de alcatrão para poder, aí, chamar um táxi. Um táxi? Pelo cheiro não parece nada ter dinheiro para isso... Digo que não me importo nada de o ajudar.
Avançamos muito devagar, os transeuntes vão olhando, passo a passo. Como as crianças, nem sempre põe o pé a direito e isso faz com que o nosso percurso seja oscilante, como se deixássemos um rasto de serpente.
Chegamos à beira do passeio e tento perceber o que ele quer. Ajuda para ficar no alcatrão encostado a um dos carros? Está bem.
Passa um táxi e faço sinal, mas ia ocupado. Passam muitos carros, mas nenhum táxi. É uma zona movimentada, decerto passará um táxi rapidamente. Pergunto-lhe: -Fica bem aqui?
Espero mais um pouco, o homem já nem repara que estou ali - penso ou quero pensar. Despeço-me e vou-me embora, de peito apertado. É como se houvesse ali uma grande questão essencial qualquer e eu não tivesse percebido qual era.
Bem mais à frente vejo um táxi. Penso em mandá-lo parar e dar-lhe uns euros para ir apanhar o desgraçado. Depois sinto-me ridículo. Penso que o homem já deve estar no táxi, a essa hora, a caminho de uma casa onde um qualquer jantar e reduzido conforto o esperará.
Cinema.
Cinema.
Cinema.
Volto para o carro. Ao passar pelo sítio onde vira o homem, vejo um monte de cartão no chão. Olho com mais atenção e estremeço ao ver um par de muletas a sair do cartão. Refugiado dentro do cartão está o homem a dormir.
Os táxis não pararam? Seria apenas um delírio? Um desejo de que fosse verdade? Ou um pedido de ajuda que eu não compreendi? Alguém o há-de ter ajudado. Aquele cartão não estava ali antes. De mão em mão, sobrevivendo graças à boa-vontade de alguns desconhecidos, o homem vai atravessando os séculos.

quarta-feira, maio 28, 2008

Sutra do Coração

«No vazio, não há forma, não há emoção, não há pensamento nem consciência;
não há olhos, ouvidos, nariz, língua, corpo ou mente;
não há sentidos, nem objectos de forma corpórea, som, cheiro, sabor ou coisas tácteis;
nada que se veja, e daí em diante, até não haver cognição mental
nem ignorância, nem extinção da ignorância, até não haver envelhecimento e morte
nem extinção do envelhecimento e morte
não há sofrimento, origem, cessação ou caminho
não há conhecimento superior, atingir a libertação ou não atingir a libertação
assim, por causa desse não atingir, o bodhisattva

foi, foi, foi completamente, foi completa e absolutamente para a luz.»

Adaptação do Prajnaparamita Hridaya Sutra

Tetralema

Ou isto é ilusão
Ou isto não é ilusão
Ou isto é ilusão e não é ilusão em simultâneo
Ou nem isto é ilusão nem deixa de ser ilusão em simultâneo

quarta-feira, abril 30, 2008

A esmeralda de Satanael

Satanael, de Satan "o acusador" e El "Deus", é o acusador ou o opositor de Deus. A lenda diz que a criatura usava uma coroa que tinha uma bela esmeralda ao centro. Um dia, ao ver que a esmeralda caía dos céus, precipitou-se atrás dela para nunca mais voltar.

A esmeralda, caída na terra, teria dado origem a um cálice. Quem bebesse desse cálice ficaria de imediato iluminado pela sabedoria divina.

Assim, a esmeralda é o símbolo da Gnose, isto é, da sabedoria divina que nos aproximará de Deus, que foi o que Satanael perdeu. O cálice que dá a sabedoria divina é conhecido como Graal.

A ligação do cálice a Cristo é imediata: também Cristo dava a sabedoria divina a quem bebesse as suas palavras. O acto simbólico de José de Arimateia lhe dar a beber a ele, Filho de Deus, do cálice da sabedoria divina pouco antes da sua morte, é um acto de transferência. É como se esse último beijo de Cristo impregnasse o cálice de toda a sabedoria que o animava.

Não é de estranhar que Cristo seja chamado de lapis ou "pedra" nas encantações dos alquimistas, pois "visita o interior da terra e rectificando-te encontrarás a pedra oculta" (Visita Interiorem Terrae Rectificandoque Invenies Ocultum Lapidem. Isto significa que temos procurar nas profundezas, por entre o conhecimento grosseiro da matéria, ao mesmo tempo que nos vamos purificando e melhorando, para que possamos encontrar a pedra oculta, Cristo, a sabedoria divina, o amor do Pai ou a Luz que perdemos na hipóstase de Sophia... Tal como os Titãs ou os Anjos Caídos...

Procurar a esmeralda de Satanael não é fazer um pacto com o diabo, é procurar aquilo que a lenda diz que ele perdeu: o caminho.