quarta-feira, outubro 01, 2008

O Azul de Mallarmé



Do azul eterno a serena ironia
Esmaga, indolentemente bela como as flores,
O poeta impotente que maldiz o seu génio
Através de um deserto estéril de Dores.

Fugindo, de olhos fechados, sinto-o a olhar
Com a intensidade de um remorso aterrador,
Para a minha alma vazia. Para onde fugir? E que noite perturbada
Lançar, farrapos, lançar sobre este desprezo aflitivo?

Nevoeiros, subi! Deixai cair as vossas cinzas monótonas
Com longos trapos da bruma nos céus
Que afogará o pântano lívido dos outonos
E erguei um grande tecto silencioso!

E tu, sai dos charcos letianos e recolhe
Ao regressares, a jarra e os pálidos juncos,
Caro Tédio, para tapar com uma mão nunca cansada
Os grandes buracos azuis que os pássaros fazem maldosamente.

E mais! que sem cessar as tristes chaminés
Fumeguem, e que de fuligem uma errante prisão
Extinga, no horror das suas negras linhas,
O sol morrendo amarelado no horizonte!

-O Céu está morto. -Em tua direcção, refugio-me! dá, ó matéria,
O esquecimento do Ideal cruel e do Pecado
A este mártir que vem partilhar a liteira
Onde o gado dos homens está deitado feliz,

Porque eu quero aí, uma vez que o meu cérebro enfim, esvaziado
Como um maço de palha caído ao pé de uma parede,
Já não tem a arte de dourar a ideia soluçante,
Lugubremente bocejar num passamento obscuro...

Em vão! O Azul triunfa, e ouço-o a cantar
Nos sinos. Minh'alma, ele faz-se voz para mais
Nos meter medo com a sua vitória maldosa
E do metal vivo sai em angelus azuis!

Ele rola pela bruma antiga e atravessa
A tua agonia nativa tal como um gládio seguro
Para onde fugir nesta revolta inútil e perversa?
Estou assombrado. O Azul! O Azul! O Azul! O Azul!

Stéphane Mallarmé

quinta-feira, setembro 25, 2008

Poema do silêncio


«Sim, foi por mim que gritei.
Declamei,
Atirei frases em volta.
Cego de angústia e de revolta.

Foi em meu nome que fiz,
A carvão, a sangue, a giz,
Sátiras e epigramas nas paredes
Que não vi serem necessárias e vós vedes.

Foi quando compreendi
Que nada me dariam do infinito que pedi,
-Que ergui mais alto o meu grito
E pedi mais infinito!

Eu, o meu eu rico de baixas e grandezas,
Eis a razão das épi trági-cómicas empresas
Que, sem rumo,
Levantei com sarcasmo, sonho, fumo...

O que buscava
Era, como qualquer, ter o que desejava.
Febres de Mais. ânsias de Altura e Abismo,
Tinham raízes banalíssimas de egoísmo.

Que só por me ser vedado
Sair deste meu ser formal e condenado,
Erigi contra os céus o meu imenso Engano
De tentar o ultra-humano, eu que sou tão humano!

Senhor meu Deus em que não creio!
Nu a teus pés, abro o meu seio
Procurei fugir de mim,
Mas sei que sou meu exclusivo fim.

Sofro, assim, pelo que sou,
Sofro por este chão que aos pés se me pegou,
Sofro por não poder fugir.
Sofro por ter prazer em me acusar e me exibir!

Senhor meu Deus em que não creio, porque és minha criação!
(Deus, para mim, sou eu chegado à perfeição...)
Senhor dá-me o poder de estar calado,
Quieto, maniatado, iluminado.

Se os gestos e as palavras que sonhei,
Nunca os usei nem usarei,
Se nada do que levo a efeito vale,
Que eu me não mova! que eu não fale!

Ah! também sei que, trabalhando só por mim,
Era por um de nós. E assim,
Neste meu vão assalto a nem sei que felicidade,
Lutava um homem pela humanidade.

Mas o meu sonho megalómano é maior
Do que a própria imensa dor
De compreender como é egoísta
A minha máxima conquista...

Senhor! que nunca mais meus versos ávidos e impuros
Me rasguem! e meus lábios cerrarão como dois muros,
E o meu Silêncio, como incenso, atingir-te-á,
E sobre mim de novo descerá...

Sim, descerá da tua mão compadecida,
Meu Deus em que não creio! e porá fim à minha vida.
E uma terra sem flor e uma pedra sem nome
Saciarão a minha fome.»

José Régio

segunda-feira, setembro 08, 2008

Sim, entra

Dentro do bosque, com os pés nus sobre a caruma fria
Vejo o frio à minha frente a cada exalação ansiosa.

A casca molhada das árvores gera uma atmosfera húmida
Que me enregela os ossos e faz estremecer a bexiga.

E há uma imanência, um absoluto, que apenas se revela
Quando já não posso voltar para trás pelo caminho por onde vim.

sábado, julho 05, 2008

Axolotl


Para os astecas eram monstros aquáticos, porque eram diferentes. Vivem sempre dentro de água, ao contrário das outras salamandras que na idade adulta perdem as guelras e passam a viver em terra. Têm uma capacidade única de regenerar qualquer parte do seu corpo que seja cortada, por um número indefinido de vezes. E às vezes são rosados.
O seu nome remete para o grande irmão gémeo de Quetzalcoatl, a serpente emplumada, chamado Xolotl. Xolotl era o psicopompo dos astecas, o que acompanhava as almas dos mortos na sua viagem através do país da morte.
Os axolotl vistos ao vivo são impressionantes, apetece tê-los em casa, estranhos e surreais, como pequenas entidades protectoras ou apenas criaturas fantásticas.