segunda-feira, outubro 10, 2005

Devaneio aquático

O torpor do frio que envolve a pele. O mar a cobrir-me. O corpo inerte junto à rebentação. Onde estou?

As ondas que rebentam e me deslocam sobre a areia. Não me mexo. O mar leva o meu corpo com as ondas. Cada vez me puxa mais para dentro. Sinto-me a renascer.

O frio na pele não afecta o interior. A boca e o nariz são invadidos pela água. Deixo-a entrar na boca para sentir o sal na língua.

Não me mexo. As ondas rebentam em mim e enrolam-me conforme passam. Vou navegando.
O balanço das águas em mim. Não me mexo.

É desta que me nascem escamas...

sexta-feira, outubro 07, 2005

Antemanhã

Uma antemanhã. Um momento sagrado em que tudo parece abrandar quase até à imobilidade total. O rio a reflectir intensamente o sol que nasce, em tons prateados que cegam. A ponte como um enorme animal, estendendo as suas patas até ao outro lado.
O rio está sujo, sob o passeio do tejo, mas acima de tudo está melancólico.
O jardim exala o cheiro das ervas aromáticas desta zona. O alecrim e o rosmaninho dominam. Vejo três pés de rosmaninho arrancados e colocados simetricamente sob a relva húmida.
Ando até ao fim da estacada das gaivotas, onde os pescadores vão pescar, como se invadissem a solidão inquietante do rio que dorme. Ainda não está lá ninguém. Pressinto gente e vejo, realmente, pescadores que se dirigem para ali. Lanço o olhar através do espaço, como um voo de gaivota, passando sobre as encostas da outra margem, dirigindo-me para o sul. O sul, onde está o sul? Depressa...
Num instante, o momento quebrou-se, os pescadores dispõem o seu equipamento e preparam-se para a pesca. Num ímpeto, atravesso o jardim a correr, recuando o rio, como se o estivesse a filmar.
Da praceta para onde me dirijo, o rio fica enquadrado ao fundo, entre o jardim e a outra margem, com a ponte de um lado e o sol em frente. Viro-me de costas e é então que a vejo. Ali, muito vermelha por fora e com um amarelo alaranjado que espreita de dentro, está uma líchia fresca na calçada. Falta-lhe um pequeno pedaço e revela as marcas de dentes muito pequenos. Imagino que tivesse sido um anjo...

quinta-feira, outubro 06, 2005

Ruas perdidas...

Ruas perdidas com dizeres em língua de boneca, traços misturados com pontos e acentos fora de sítio. Paredes antigas, cheiros estranhos, ruídos de bazar. Aqui, um muro indiscreto que deixa ver um cemitério judaico, ali, um almoadim no alto de um minarete a chamar os crentes à imponente mesquita azul, de altifalante em punho.
Um Hammas, de pedra tão antiga que mais parece Bizantino. Uma sala de cachimbos de água, onde em tapetes suaves e almofadas macias se joga o gamão e se bebe chá de maçã.
Pessoas estranhas que nos abordam na rua, com propostas extravagantes, querendo levar-nos para locais incertos.
Iogurte com pepino e alho, fresquíssimo, onde não nos cansamos de mergulhar o pão. Sumo fresco de cereja no meio da rua, numa tarde escaldante junto ao Bósforo.
Panos, chás, caviar, gente, pratas, móveis, tabaco de contrabando, licores estranhos, roupa oriental, gente diferente, olhos diferentes, caras escuras e olhos brilhantes, nichos que surgem detrás de cortinas esvoaçantes e revelam pequenas esplanadas... Um não se saber bem onde se está.
No centro, um coração pulsante, uma palpitação sensível, um chamamento imponente e inevitável: Hagia Sofia. A Igreja que é Mesquita, a Santa Sabedoria, que vê tudo isto de coração complacente e absorve tudo: os narguilés e as dançarinas do ventre, os violinistas e as danças nos restaurantes, a gente afável e perturbante que nos invade o espaço, o oriente em si, todo a entrar pela Europa adentro, ali, em Istambul.

terça-feira, outubro 04, 2005

Lar

Subir por aquela encosta sentindo, à distância, o cheiro a pão quente. Entrar na cozinha quente e ver-te, com a cara vermelha do calor, a tirar o pão do forno de lenha.

Tens um lenço na cabeça que deixa cair uns fios de cabelo negro sobre os olhos. Tens as mãos cheias de farinha e há um cheiro a alecrim no ar, da vassoura com que varreste as brasas do forno. Os olhos brilham-te. Estás suada, mas feliz.

No ar, o cheiro a pão misturado com o alecrim deixa, ainda, perceber um outro aroma, algo mais fino, mais macio... Algo que se imiscui no odor que a madeira libertou ao arder. Um perfume que se sobrepõe à profusão de cheiros, embora seja mais ténue que todos eles.

É um cheiro a serões confortáveis sentados à lareira, um cheiro de noites no alpendre com a tua cabeça a descansar no meu peito, um cheiro de proximidade... É o cheiro que povoa as nossas manhãs de intimidade... És tu.

segunda-feira, outubro 03, 2005

Eclipsa-me

Eclipsa-me os sentidos, a mente, o corpo. Eclipsa-me este querer, esta ânsia de devorar o mundo! Eclipsa-me os que não falam com verdade e os que se apressam para o mal. Eclipsa-me o mar e a última onda do dia, a espraiar-se solitária numa praia deserta... Eclipsa-me essa onda, especialmente, para que não me lembre que há beleza tão imensa que desfaz toda a tristeza do mundo. Porque hoje quero sentir-me triste. Porque hoje, quero sentir-me nas profundezas aquáticas da melancolia.
Eclipsa-me, só hoje, para que me possa demorar nos pântanos e na charneca, e me possa sentir triste. Para que possa vaguear na penumbra, como uma alma perdida. Para que possa comer com os mortos e rir, sentado à sua mesa. Para que dos meus lábios não tenha de sair uma só palavra, só hoje. Só hoje, um eclipse que me oculte assim, subitamente. Um eclipse que fosse maior do que o mundo e, ao partir, deixasse a verdade a brilhar, luzidia, nos olhos das pessoas. E não houvesse mais mentira.