quarta-feira, fevereiro 22, 2006

The figurehead

Sharp and open
Leave me alone
I'm sleeping less every night
As the days become heavier and weighted
Waiting
In the cold light
A noise
A scream tears my clothes as the figurines tighten
With spiders inside of them
All the dust on the lips of a vision of hell
I laughed in the mirror for the first time in a year.

A hundred other words blind me with your purity
Like an old painted doll in the throws of dance
I think about tomorrow
Please let me sleep
As I slip down the window
Freshly squashed fly
You mean nothing
You mean nothing

I can lose myself in chinese art and american girls
All the time
Lose me in the dark
Please do it right
Run into the night
I will lose myself tomorrow
Crimson pain
My heart explodes
My memory in a fire
And someone will listen
At least for a short while

I can never say no to anyone but you

Too many secrets
Too many lies
Writhing with hatred
Too many secrets
Please make it good tonight
But the same image haunts me
In sequence
In despair of time

I will never be clean again
I touched her eyes
Pressed my stained face
I will never be clean again
Touch her eyes
Press my stained face
I will never be clean again
I will never be clean again
I will never be clean again
I will never be clean again

Arame farpado

O arame farpado está sempre com os dentes afiados. Sempre à espera como um enorme cão-de-guarda, Cérbero ao serviço da ignorância e do ódio. Sempre o ódio, como uma enorme nuvem negra, pairando sobre as cabeças das pessoas todas do mundo, prometendo uma tempestade como nunca se viu. Nunca ninguém viu o ódio, ele só aparece quando já estamos todos cegos.

Só se vê o desalento. O desalento que atira uns trapos esquálidos para cima dos dentes afiados, tentando minimizar a dor, tentando evitar o rasgar-se da carne... Quando passamos sobre o arame farpado nunca conseguimos sair incólumes. Nunca a nossa carne permanece pura e intocada. É a perda da inocência. Como se ela ficasse ali, devorada por Cérbero, à porta do Inferno, enquanto fugimos em debandada do ódio que se aproxima. Enquanto fugimos da dor, da dissolução da consciência, do horror das mandíbulas de Saturno.

Salto para o chão e caio na lama. O muro era alto. Ouço os cães a ladrar, aproximam-se. Há estampidos no ar, tiros de armas que não conhecem o amor, dor e gritos dos meus irmãos que ficaram presos nas bocas de Cérbero, com sangue a escorrer da alma... Há uma escuridão absoluta no mundo, um fim do tempo, uma iminência de absoluto.

Eles vêm aí. Corro sem olhar para trás, sem ouvir os gritos, sem hesitar, sem os ouvir, que me perseguem, que me querem destroçar. E ao fugir sei que abandono tudo de vez, que me abandono ali, prisioneiro para todo o sempre, e apenas procuro a salvação da minha existência miserável.

O riso infernal abana tudo, até mesmo o chão, e é um riso escuro e malévolo, muito longe do contentamento, cheio de desprezo. É um riso que me faz tremer até aonde o meu ser dorme em mim...

O rio aproxima-se. Mais arame farpado. Estou perdido no Inferno.

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

Nome de uma Colina Neozelandesa

Taumatawhakatangihangakoauauotamateaturipukakapikimaungahoronukupokaiwhenuakitanatahu
«Aqui é o lugar onde Tamatea, o homem dos grandes joelhos, que deslizava, trepava e engolia montanhas, conhecido como o traga-mundos, tocava flauta para a sua amada.»

terça-feira, fevereiro 14, 2006

Alma ao Vento


Kokoschka voltou da Iª Guerra ferido e foi considerado mentalmente instável, mas continuou a pintar.

Conheceu a Alma e teve com ela uma relação intensa e tempestuosa. Amou-a como se a conhecesse desde sempre. Depois, a Alma acabou a relação por temer ser consumida por essa paixão tão intensa. Kokschka amou-a até ao fim da vida.

Aqui está o seu tributo a ela, o quadro que ele lhe dedicou: A Noiva ao Vento.

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

Botticelli e A Calúnia de Apeles


O julgamento de Apeles é como muitos outros que conhecemos.

O rei e juiz está acompanhado pela Ignorância e pela Suspeita, suas conselheiras. Estas murmuram-lhe constantemente ao ouvido palavras venenosas, razão pela qual ele tem orelhas de burro.. De olhos virados para o chão, ele nem vê o que se passa.

A Inveja vem perante ele, acusadora, e estende um braço muito comprido para o alcançar. Traz a Calúnia pela mão.

A Calúnia tem uma tocha acesa na mão como se viesse mostrar a luz. A Malícia e a Fraude são as suas companheiras e não param de a adornar com flores, os atributos da pureza, que entrançam nos cabelos da sua senhora, procurando disfarçá-la.

Apeles vem, na figura de um homem inocente, arrastado pela Calúnia que o agarra pelos cabelos, acusadora. Ele está despido e de mãos juntas, apelando a uma justiça divina, superior àquela terrível fantochada.

Atrás deles, a horrível figura do Remorso olha sorrateiramente, por cima do ombro, para a Verdade.

A Verdade aponta para cima, remetendo o inocente à justiça divina, e aparece nua, sem nada para esconder, tal como o Apeles.

Todos os outros ocultam a sua verdadeira natureza com muita roupa, alguns até evocando a pureza.

Quem já foi caluniado assim, não o esquece certamente. A mim o que me arrepia mais é a luz que a Calúnia traz e o olhar horrendo do Remorso...

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

Primavera de Botticelli


O jardim de Vénus, coberto de plantas e cheio de flores, perfumado de natureza, tão rico que nele foram identificadas mais de 500 plantas e flores diferentes. Delicioso lugar de devaneio...

À esquerda, Mercúrio protege o jardim, atento e de espada à cintura, capaz de afastar até os mais temíveis adversários.

Seguem-se-lhe as três Graças, filhas de Júpiter, provindas da tradição grega, representando a alegria, o encanto e a beleza, na sua dança de celebração.

À direita, Zéfiro, o vento oeste, avança violentamente atrás da ninfa que entra no jardim. É uma alusão ao rapto de Chloris, que ele tomou para si.

Arrependido, fez dela a Deusa Flora e deu-lhe domínio sobre a Primavera. Vêem-se flores a sair-lhe da boca...

«Enquanto ela falava, os seus lábios exalavam rosas primaveris: Eu fui Chloris, e agora chamam-me Flora.» (Ovídio)

A Primavera vai entrando no jardim, lançando flores por onde passa, perfumando tudo, enchendo tudo de maravilha.

Ao fundo, observando e controlando tudo, senhora do jardim, está Vénus. E no ar, voando, cego e armado com o seu arco, o seu filho Cupido aponta para as Três Graças e prepara-se para lançar uma flecha de amor...

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

Nós

(x + y)^2 = x^2 + 2xy + y^2 = x^2 + y^2 + 2xy.

Quando mergulho em ti, quando mergulhas em mim, cada um de nós brilha por dentro. Há qualquer coisa, porém, para além disso, que se manifesta silenciosamente num espaço que antes não existia e que se chama nós. É que quando eu mergulho em ti, há uma parte de mim que se perde em ti. E quando mergulhas em mim, deixas uma parte de ti no meu interior. E é essa essência partilhada daquilo que cada um de nós era, que forja esse espaço em que nos amamos.

Tão perdidos...

O mar à nossa volta... Estamos tão perdidos. Somos um destroço atirado pelas vagas incessantes. Somos um destroço... O mar à nossa volta, à nossa volta, não tardará a submergir a nossa pobre barca e com ela todo o universo.

O mar à nossa volta não pára nunca de rugir, tremendo, erguendo-se a alturas impossíveis, com a sua força inimaginável...

E nós, encolhidos na pobre barca com que tentamos em vão atravessar os mares do mundo.

E nós, tão perdidos, tão perdidos. Damos as mãos e olhamos para a imensidão do infinito.

Tens lágrimas nos olhos e eu sorrio antes da vaga final dissolver tudo...

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

Um dia marcante

Hoje é um dia marcante.
Uma velha alma, velha guerreira, que já se preparava para abandonar a matéria que a envolvia há muito tempo, resolveu finalmente partir.
Dois bebés, um menino e uma menina gémeos, duas flores maravilhosas, geradas num ventre quente e amoroso, resolveram despontar e nascer.
Que os recém-nascidos sejam abençoados por todas as entidades benfazejas que povoam a terra.
Que aquela que partiu voe, voe, voe para longe, muito longe, completamente, e volte a ser toda feita de luz.
Que todos os ciclos se cumpram até ao fim.