quinta-feira, outubro 06, 2005

Ruas perdidas...

Ruas perdidas com dizeres em língua de boneca, traços misturados com pontos e acentos fora de sítio. Paredes antigas, cheiros estranhos, ruídos de bazar. Aqui, um muro indiscreto que deixa ver um cemitério judaico, ali, um almoadim no alto de um minarete a chamar os crentes à imponente mesquita azul, de altifalante em punho.
Um Hammas, de pedra tão antiga que mais parece Bizantino. Uma sala de cachimbos de água, onde em tapetes suaves e almofadas macias se joga o gamão e se bebe chá de maçã.
Pessoas estranhas que nos abordam na rua, com propostas extravagantes, querendo levar-nos para locais incertos.
Iogurte com pepino e alho, fresquíssimo, onde não nos cansamos de mergulhar o pão. Sumo fresco de cereja no meio da rua, numa tarde escaldante junto ao Bósforo.
Panos, chás, caviar, gente, pratas, móveis, tabaco de contrabando, licores estranhos, roupa oriental, gente diferente, olhos diferentes, caras escuras e olhos brilhantes, nichos que surgem detrás de cortinas esvoaçantes e revelam pequenas esplanadas... Um não se saber bem onde se está.
No centro, um coração pulsante, uma palpitação sensível, um chamamento imponente e inevitável: Hagia Sofia. A Igreja que é Mesquita, a Santa Sabedoria, que vê tudo isto de coração complacente e absorve tudo: os narguilés e as dançarinas do ventre, os violinistas e as danças nos restaurantes, a gente afável e perturbante que nos invade o espaço, o oriente em si, todo a entrar pela Europa adentro, ali, em Istambul.

terça-feira, outubro 04, 2005

Lar

Subir por aquela encosta sentindo, à distância, o cheiro a pão quente. Entrar na cozinha quente e ver-te, com a cara vermelha do calor, a tirar o pão do forno de lenha.

Tens um lenço na cabeça que deixa cair uns fios de cabelo negro sobre os olhos. Tens as mãos cheias de farinha e há um cheiro a alecrim no ar, da vassoura com que varreste as brasas do forno. Os olhos brilham-te. Estás suada, mas feliz.

No ar, o cheiro a pão misturado com o alecrim deixa, ainda, perceber um outro aroma, algo mais fino, mais macio... Algo que se imiscui no odor que a madeira libertou ao arder. Um perfume que se sobrepõe à profusão de cheiros, embora seja mais ténue que todos eles.

É um cheiro a serões confortáveis sentados à lareira, um cheiro de noites no alpendre com a tua cabeça a descansar no meu peito, um cheiro de proximidade... É o cheiro que povoa as nossas manhãs de intimidade... És tu.

segunda-feira, outubro 03, 2005

Eclipsa-me

Eclipsa-me os sentidos, a mente, o corpo. Eclipsa-me este querer, esta ânsia de devorar o mundo! Eclipsa-me os que não falam com verdade e os que se apressam para o mal. Eclipsa-me o mar e a última onda do dia, a espraiar-se solitária numa praia deserta... Eclipsa-me essa onda, especialmente, para que não me lembre que há beleza tão imensa que desfaz toda a tristeza do mundo. Porque hoje quero sentir-me triste. Porque hoje, quero sentir-me nas profundezas aquáticas da melancolia.
Eclipsa-me, só hoje, para que me possa demorar nos pântanos e na charneca, e me possa sentir triste. Para que possa vaguear na penumbra, como uma alma perdida. Para que possa comer com os mortos e rir, sentado à sua mesa. Para que dos meus lábios não tenha de sair uma só palavra, só hoje. Só hoje, um eclipse que me oculte assim, subitamente. Um eclipse que fosse maior do que o mundo e, ao partir, deixasse a verdade a brilhar, luzidia, nos olhos das pessoas. E não houvesse mais mentira.

quinta-feira, setembro 29, 2005

És bosque, és terra...


Um olhar lançado através do ar em direcção aos teus olhos. Já nos conhecemos. Num sonho dei-te a beber de um cálice de ibisco um néctar misterioso. Depois ergueste-te (pois estávamos sentados numa clareira) e segui-te até ao coração do bosque.
Chegámos àquele ponto em que tudo parece estar em vibração, onde todo o bosque fala, todo ele se faz sentir. Dali já não nos podíamos entranhar mais. Vi-te, com assombro, a deitares o teu corpo num tronco que te começou a envolver, a cercar de ramos, a cobrir de árvore. Logo desapareceste na árvore, como se todo o teu ser tivesse sido assimilado por ela. E fiquei só no bosque.
O sol poderia brilhar, mas ali não se via nada, só árvores, só raízes, só cheiro a musgo e a húmus. Sentei-me no tronco. Deixei pousar as mãos na casca macia e fria, húmida, onde tinhas desaparecido.
O toque era bom, as mãos gostaram, os dedos começaram a brincar, a esgaravatar, a entrar pela árvore adentro. Depois, foi tudo uma vertigem. O corpo lançou-se como um chicote e agarrou-se com força ao tronco, um vórtice. A boca mergulhou e não encontrou um tronco duro e sim uma piscina de orvalho fresco, uma boca suave e vegetal, um amor-perfeito. As mãos acharam na madeira um corpo subtil. O mundo virou-se ao contrário e encontrei-te na ilha do coração da árvore, só e à minha espera. O olhar atravessou o ar a cheirar a terra molhada, como uma intenção, e mergulhei em ti.

sexta-feira, setembro 23, 2005

Solidão?

Cada um está a sós com aquilo que é (Man ist allein mit was man ist. - Novalis). O que não quer dizer que não se possa sair de si. A comunicação é o milagre que permite que isto aconteça. O impossível concretizado é quando me dizes algo que tem tudo a ver comigo. Como se soubesses, como se me conhecesses por dentro. O impossível. Cada um está só, mas estamos todos sós da mesma maneira, o que faz de nós criaturas semelhantes e possibilita a comunicação.
Para mim é maravilhoso o diálogo, tão maravilhoso que não estranho minimamente os mal-entendidos, os desencontros, as discussões. Para mim essa é a regra. Quando o entendimento é total maravilho-me, nesses momentos acalenta-me a pálida visão de uma humanidade unida.
O auge da comunicação, a situação em que te entendo melhor, é, para mim, o amor. No amor, tudo se faz veículo e falas-me com a voz, sim, mas também com o olhar e com o corpo e, até, com os teus silêncios. Através do amor, nada será silenciado.
In a matter of speaking I just want to say that I could never forget the way you told me everything by saying nothing (Tuxedomoon e, agora, também Nouvelle Vague).