segunda-feira, março 27, 2006

O beijo

Lúcifer mergulhou na noite. Beija-me, disse ela sentada na rocha. Os candeeiros emitiam luzes ténues e as ruas estavam desertas. Que linda que ela estava ali deitada, cheia de vida, ansiosa e com os lábios entreabertos... O sol aproximava-se do poente e o céu alaranjava. O som dos seus passos ecoava nos caixotes do lixo e nas montras das lojas fechadas: toda a cidade dormia. Lúcifer galgou as escadas do prédio e entrou em casa. Quando se aproximou, lembrava-se bem, ela deixou descair um pouco a cabeça para trás avançando os lábios para o seu beijo que desceu sobre o pescoço exposto, fazendo prolongar a sua inquietação. Beija-me, repetiu sofregamente, na boca.

sexta-feira, março 10, 2006

Palimpsesto

Precompletamorenchesesensamoçõesmedesejosamente.

Enigma do desejo

A nuvem que se estende nua sobre o sol
Coisa doce e feminina, essência, mulher
Força de concretização, determinação ou pujança
Que apraz com requintes subtis, faz fruir com suavidade
Coisas rudes e fortes, masculinas
Que permitem perceber o mundo, que o enchem de luz e de som,
   de cheiro e carícias, de sabor.
Mas há mais, há mais a dizer:
Perturba, faz estremecer, sair de si agitado, descompassado
Coisa forte e rude, masculina,
Que bate com amor, que sofre com brandura, e que ama com verdade...

quinta-feira, março 09, 2006

Perlirariraricorrendolirarirari

Perlirariraricorrendolirarirari-cantandolirarirarirará pelas ruasrirará encontrambolhei-me num jardim de avedebicantes e pomborrulhantes criaturitas.

Fizemostraram-me dentebicadas armas e olhelos provocantimidantes ao que eubeubeubeubéu reagesbocei com uma partilargadigritante que os fez a todos voadispersar. E eu, tristipesado, que não sei esvoarasar fiquei pesagravitaduimudo num jardim cheio de nada.

quarta-feira, março 01, 2006

Como era aquela canção?

O chão sob os pés. Como era aquela canção? Havia uma espessura aromática no ar, não havia? E depois tu dizias para nos irmos deitar lá fora, na relva. O chão era madeira sob os pés, madeira que estremecia quando nos perdíamos em brincadeiras daquela época. Nunca fomos só isto. A luz entrava esparsa mas brilhante por entre as tábuas das portadas sempre fechadas. Foi num dia de trovoada que o Rui as tentou abrir para podermos ver os relâmpagos que rasgavam o céu. Ficámos de boca aberta. Depois disso nunca mais as conseguimos abrir. Nunca fomos sequer estes momentos, estes pedaços maravilhosos de encontros. Gente feita de pequenos encontros perdidos no tempo. O chão estremecia quando descias do sótão a correr. Os cabelos voavam atrás de ti. O teu riso que me chamava e me fazia correr também. Ríamos e deslizávamos pelo corrimão. Lá em baixo fazia sol. A terra que se metia por entre os dedos dos pés. O cheiro a primavera. E as nuvens a passar, como se o tempo estivesse parado.